Software Livre: História

Começando hoje, pretendo publicar um pequeno conjunto de textos sobre software livre abordando sua história, as motivações para desenvolvê-lo e utilizá-lo, os modelos de negócio baseados nele e alguns dos mitos que ainda permanecem bastante difundidos. Os textos serão adaptações de partes da monografia que eu co-escrevi para a conclusão de um MBA em Gestão Empresarial. Agradeço à Christina, à Luciane, ao Paulo, ao Rafael e à Sofia, que compartilharam comigo as agruras de escrever o trabalho, por me permitire publicar este resumo.


A Free Software Foundation (FSF) define como software livre aquele que qualquer um pode executar, copiar, distribuir, estudar, modificar e aperfeiçoar. Mais precisamente, o conceito de software livre requer que os termos de distribuição do programa ofereçam estas quatro liberdades aos seus usuários:
  • A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito.

  • A liberdade de estudar como o programa funciona e de adaptá-lo para as suas necessidades.

  • A liberdade de redistribuir cópias do programa.

  • A liberdade de aperfeiçoar o programa e de liberar os seus aperfeiçoamentos ao público, de modo que toda a comunidade de usuários possa se beneficiar.


Richard Stallman cunhou o termo "software livre" em 1984 e fundou a FSF em 1985 com o objetivo de promover o desenvolvimento e a utilização deste tipo de software. A estratégia original da FSF, idealizada por Stallman, foi a de implementar um sistema operacional completo, composto inteiramente de software livre. O sistema, inspirado nos sistemas Unix da época, ganhou o nome de GNU, um acrônimo recursivo significando GNU's Not Unix. Até 1990 a FSF já havia atraído o interesse de vários colaboradores individuais e desenvolvido um conjunto significativo de software no Projeto GNU, com a exceção de um núcleo (kernel) para o sistema. Em 1991 o finlandês Linus Torvalds iniciou o desenvolvimento do Linux kernel e disponibilizou-o como software livre. A concretização de um núcleo livre e o advento da Internet foram provavelmente os maiores responsáveis pela viabilização do ideal de Stallman. O Linux, por permitir pela primeira vez que um computador rodasse um sistema completamente livre. A Internet, por permitir que o modelo de desenvolvimento colaborativo pudesse ser adotado em grande escala.


As quatro liberdades citadas na definição são centrais ao conceito de software livre. A associação comum, mas errônea, que se faz entre software livre e software grátis resulta de dois fatores: um semântico e outro econômico. O fator semântico está relacionado ao fato de que a palavra free em inglês pode significar tanto “liberdade” quanto “gratuidade”. Stallman alerta que o termo free deve ser entendido como em free speech e não como em free beer. Existe um termo específico para designar software grátis que também é comumente confundido com software livre: freeware.


O fator econômico que leva a esta confusão é que quase todo software livre pode ser baixado gratuitamente da Internet. Mas o que leva a quase todo software livre estar disponível gratuitamente não é uma restrição conceitual ou jurídica, mas sim efeito indireto da liberdade de redistribuição. Como qualquer usuário pode redistribuir o software (cobrando ou não por isso) este se torna um bem abundante e perde seu valor de venda: uma simples aplicação da Lei da Oferta e da Procura. Portanto, software livre não é anti-comercial ou não-comercial. Ele apenas dificulta a sua comercialização através do modelo tradicional de venda de licenças de uso.


O termo software proprietário é comumente usado para designar o software não-livre. Isto não é estritamente correto porque a maioria dos softwares livres são de propriedade de seus autores originais. A legislação de direito autoral (no Brasil e em outros países de direito romano) ou de copyright (nos EUA e em outros países de direito anglo-saxão) garante ao autor do software direitos exclusivos sobre a sua utilização e distribuição. A maioria dos sistemas de software livre são distribuídos mediante licenças de uso bastante liberais nas quais os autores abrem mão da maioria dos seus direitos para conferir aos usuários as quatro liberdades fundamentais. O contrário de software proprietário seria software em domínio público, i.e., software cujo autor tenha abdicado explicitamente de todos os seus direitos ou cujos direitos tenham expirado. Apesar disto, o termo "software proprietário" está tão fortemente associado ao conceito de software livre como sendo seu antônimo que já não é mais possível substituí-lo por outro mais correto.


(Na verdade, não existe ainda software em domínio público por expiração do copyright ou do direito de autor porque o prazo de expiração destes direitos é muito grande. No Brasil, o direito autoral expira 70 anos depois da morte do autor. Nos EUA, o copyright de uma obra criada por um autor individual expira 70 anos depois da sua morte e o copyright de uma obra criada por uma corporação expira 95 anos depois da primeira publicação ou 120 anos depois da sua criação, o que vier primeiro. Os poucos sistemas de software em domínio público de que se tem notícia estão nesta condição por terem sido assim colocados explicitamente pelos seus autores. Um dos exemplos mais conhecidos é o do processador de texto TeX.)


De fato, a definição de software livre cita apenas as quatro liberdades fundamentais que os termos de distribuição do software precisam garantir. Por não ser regido por nenhuma regra, o software em domínio público não impõe nenhuma restrição ao usuário, podendo ser considerado uma forma degenerada de software livre, visto que seus usuários têm liberdade de fazer com ele o que bem entenderem. Dentre os sistemas de software livre que não estão em domínio público há uma grande variedade de licenças de uso que conferem minimamente as quatro liberdades fundamentais. Algumas licenças são tão liberais que exigem apenas a preservação do termo de copyright, e ressaltam o não oferecimento de qualquer garantia. Programas regidos por este tipo de licença, assim como aqueles em domínio público, podem ser re-distribuídos como software proprietário ou servir de base para o desenvolvimento de outros sistemas de software proprietários.


Outras licenças impõem restrições aos termos que os usuários podem usar para redistribuir o software regido por elas. Normalmente estas licenças não permitem que o código fonte do software seja usado como parte de uma obra maior, a menos que o produto final seja também regido pela mesma licença. Estas licenças funcionam efetivamente como uma “vacina” para que o código fonte do software livre não seja “contaminado” por código fonte proprietário. (Infelizmente, é mais comum encontrar mençoes à metáfora inversa, falando no “efeito virótico” destas licenças, no sentido de que se alguém incorporar código fonte regido por elas em um programa proprietário o programa passa a ser necessariamente livre.) A GNU GPL é a licença livre mais antiga e mais utilizada. Ela se enquadra no rol das licenças que restringem a utilização do produto como base para o desenvolvimento de software proprietário. Ela foi idealizada por Richard Stallman como parte de sua estratégia para preservar o corpo de software livre que a FSF produz.


Além de desenvolverem software livre, Stallman e a FSF iniciaram um movimento ideológico atrelado ao conceito de software livre. Mas ao final da década de 1990, nem todos os participantes da comunidade de software livre compartilhavam dos ideais de Stallman. Um conjunto de hackers influentes na comunidade viam motivações mais pragmáticas e menos ideológicas para o desenvolvimento e a utilização de software livre. (O significado original do termo hacker era usado para designar uma pessoa altamente competente na programação de computadores. Sua associação aos vândalos e criminosos da Internet é uma conotação mais recente e extremamente infeliz. A wikipedia conta a história dessa controvérsia.) Eles julgavam que o modelo de desenvolvimento colaborativo tradicionalmente empregado nos projetos de software livre tinha vantagens importantes, em termos de qualidade e custo, em relação ao modelo usado no desenvolvimento dentro das empresas. Mas eles viam fortes barreiras para a adoção do software livre no mundo empresarial, principalmente em função da conotação fortemente ideológica do movimento liderado por Stallman e da associação infeliz entre software livre e software grátis.


Em 1998 esses hackers se organizaram com o objetivo explícito de delinear uma campanha de marketing para promover o conceito de software livre no mundo empresarial. Sua primeira ação foi cunhar o termo open source software, ou software de código aberto, como sinônimo de software livre mas usando palavras menos ambíguas e menos carregadas. Com ligações dentro de algumas empresas de tecnologia do Vale do Silício e na imprensa, eles empreenderam uma campanha visando criar visibilidade para o novo termo e associá-lo às vantagens pragmáticas do modelo de desenvolvimento. Nesta época surgiram dois documentos seminais que influenciaram tremendamente o sucesso da campanha. Eric Raymond escreveu The Cathedral and the Bazaar, artigo no qual procurou explicar o funcionamento do modelo de desenvolvimento e foi importante na decisão da Netscape de liberar o código fonte do seu browser. Bruce Perens escreveu a Open Source Definition que define software de código aberto em função de um conjunto de critérios que seus termos de distribuição devem respeitar, incluindo a liberdade de redistribuição, modificação e redistribuição e a disponibilização do código fonte.


O termo “código aberto” não está livre de ambiguidades, porém. Exatamente por ressaltar um dos aspectos do software livre, a necessidade de disponibilizar o código fonte, há quem entenda que basta vir acompanhado do código fonte pra que um software seja considerado de código aberto. Isto não é o caso, como ressalta a Open Source Definition logo na sua introdução. Além de ter acesso ao código fonte, é preciso que o usuário tenha a liberdade de modificá-lo e redistribuí-lo sem restrições adicionais.


Apesar de possuirem definições bem diferentes, software livre e software de código aberto são essencialmente a mesma coisa em termos de classificação. Isto é, todo software livre é software de código aberto e vice-versa. A diferença, nem sempre percebida, está na conotação que cada termo traz e implica em relação ao produto qualificado. Ao falar em software livre o interlocutor está ressaltando as liberdades que ele confere ao usuário. Já ao falar em software de código aberto o interlocutor está ressaltando as vantagens inerentes ao seu modelo de desenvolvimento.


A campanha de marketing desses hackers funcionou. Pelo menos no que se refere ao novo nome. Hoje o termo “open source” é usado três vezes mais freqüentemente que o termo “free software”, de acordo com os resultados da pesquisa no Google. Mas é interessante perceber que no Brasil este fenômeno não ocorreu. O termo “software livre” é usado duas vezes mais freqüentemente que os termo “código aberto” e “open source” juntos, de acordo com o Google. Eu creio que isso se deva, em primeiro lugar, ao fato de que o termo “livre” em português não tem conotação de “grátis”. Além disso, é mais fácil falar e escrever “software livre” que “open source” ou “código aberto”.


Eu prefiro falar "software livre". Acho que soa melhor. Talvez porque eu tenha começado a usá-lo alguns anos antes de o termo "código aberto" ter sido inventado. Há um conjunto de hackers para os quais a escolha do termo reflete um posicionamento ideológico. Respeito isso e acho que os argumentos dos dois lados são bastante fortes. Mas não é o meu caso. Meu uso do termo "software livre" não traz nenhum juízo de valor.

Consertos caseiros

Eu não me lembro de já ter visto chuva assim em Campinas. Em Florianópolis, talvez, mas já faz mais de 20 anos que saí de lá e posso estar enganado.

Tanta água acaba gerando efeitos surpreendentes. Ontem minha esposa me chamou dizendo que não conseguia fechar a porta da frente. Acho que preciso explicar, antes de mais nada, que esta porta é muito pouco usada. Usamos sempre a porta da cozinha, por ser mais prático e pra não ter que pisar na grama. (Defeitos que você só percebe depois de uma obra pronta.)

Aproveitando o tempo horrível ela resolveu retirar os enfeites de Natal. Um deles estava afixado na porta da frente. Ela abriu a porta, tirou o enfeite e não conseguiu mais fechá-la. O excesso de humidade fez a porta estufar o suficiente pra que a sua base batesse no batente da porta e impedisse o fechamento.

Eu não sou muito afeito a trabalhos manuais. Geralmente, quando eu me atrevo a consertar alguma coisa mais complicada que um prendedor de roupa acabo entrando num processo crescente de estresse e frustração que acaba me tirando do sério. Mas, como eu desconfio que esse problema deve ser decorrência mais de um bloqueio mental que de alguma deficiência motora, eu sempre encaro esses desafios com a altivez mais apropriada aos experts.

Fui até a sala e investiguei o problema. Constatei que "o que estava pegando" eram apenas os dez centímetros da parte mais baixa da porta. Todo o resto estava ok. Pensei em usar o velho truque do "força pra ver", mas fiquei com medo de levar uma bronca da minha esposa caso o resultado fosse algum estrago mais sério na porta ou no batente. E uma bronca levada na porta da sala "aberta" não parecia uma imagem confortável.

Ela sugeriu que eu ligasse pra alguém, mas aí meus brios falaram mais alto e eu decidi que tinha que tentar resolver a questão sozinho pra não passar essa vergonha. Busquei a ferramenta que uso pra quase todas estas situações caseiras: uma chave de fenda. Não que houvesse algum parafuso pra ser desatarrachado, mas eu imaginei que usando a sua ponta como um calço entre a porta e o batente eu pudesse fazer a porta deslizar pra dentro assim como uma calçadeira ajuda um pé a deslizar pra dentro do sapato.

Fiz algumas tentativas sem sucesso, mas percebi que a chave de fenda estava causando alguns sutis afundamentos na madeira da porta. Isso me deu um certo medo, mas também alguma esperança de que a idéia era boa, embora a ferramenta talvez não fosse a mais adequada.

Percebi minha esposa um tanto preocupada com minhas investidas e imagino que ela já estivesse até um tanto arrependida de ter pedido minha ajuda. Levantei-me e ela voltou a sugerir (mais fortemente) que eu chamasse alguém. Fui resoluto pra cozinha em busca da segunda opção de ferramenta: um facão. Não, eu não pretendia descascar a porta ou a soleira. Eu imaginei que a ponta do facão era mais fina e mais larga que a chave de fenda: exatamente o que eu precisava.

Avaliei mais uma vez os locais mais problemáticos da porta, coloquei a ponta do facão ao lado e empurrei com um pouco mais de força a porta. Entrou. E, melhor: consegui puxar o facão pra fora. Ainda bem que eu estava do lado de dentro da sala, pois algum vizinho poderia estranhar a visão de um cara de pijamas, pulando alucinado com um facão na mão.

Anunciei orgulhoso meu feito a todos os da casa e decretei que a porta da frente deveria permanecer fechada até que tivéssemos alguns dias seguidos sem chuva.

Urnas Eletrônicas e Segurança

A questão da segurança do processo eleitoral baseado em urnas eletrônicas é bastante controvertida. Acho que a maioria de nós, brasileiros, tem dificuldade em analisar criticamente essa questão. Afinal, dá um certo orgulho ver que o nosso sistema é mais moderno e eficiente que os sistemas eleitorais da maioria dos países mais evoluídos. Mas fechar os olhos pra essa questão é muito perigoso. Afinal, o risco é sempre proporcional ao valor daquilo que se quer proteger, e há poucos "prêmios" mais valiosos pra um ladrão que um cargo político.

O Bruce Schneier já escreveu bastante sobre os riscos dos processos eleitorais eletrônicos em seu blog. Há alguns dias ele escreveu uma análise da questão muito interessante porque sumariza a maioria dos problemas envolvidos. Segue minha tradução do texto.

Na semana passada, no 13º distrito congressional da Flórida, a margem de vitória foi de apenas 386 votos num total de 153.000. Haverá uma recontagem mandatória, mas ela não incluirá os quase 18.000 votos que parecem ter desaparecido. As urnas eletrônicas não os incluíram em seus registros finais e não há backups que sirvam para a recontagem. O distrito escolherá um vencedor para a cadeira em Washington, mas não será porque eles terão certeza de que a maioria votou por ele. Talvez sim, talvez não. Não há como saber.

As urnas eletrônicas representam uma grave ameaça para eleições justas e corretas, uma ameaça que deveria preocupar a todo estadunidense -- seja ele republicano, democrata ou independente. Por serem baseadas em computadores, as ações deliberadas ou acidentais de uns poucos podem afetar o resultado de toda uma eleição. A solução: cédulas de papel, que podem ser verificadas pelos eleitores e recontadas, se necessário.

Para entender a segurança das urnas eletrônicas você precisa antes considerar a segurança do processo eleitoral como um todo. O objetivo de qualquer sistema eleitoral é capturar a intenção de cada eleitor e somá-las gerando uma somatória consolidada. Na prática isso ocorre através de uma série de transferências. Quando eu votei na semana passada, eu transferi minha intenção para uma cédula de papel, que foi então transferida para uma máquina de tabulação através de uma leitora óptica; no fim da noite, as somas individuais dessas máquinas foram transferidas por oficiais eleitorais para uma central de processamento e combinadas em um resultado único que eu vi na televisão.

Todos os problemas eleitorais são erros introduzidos em uma dessas transferências, seja cadastro errado de eleitores, cédulas confusas, máquinas que não funcionam ou erros de contagem de votos. Mesmo em operação normal cada um desses passos pode introduzir erros. A correção do resultado, portanto, é uma questão de (1) minimizar o número de transferências e (2) aumentar a confiabilidade de cada passo.

Grande parte da segurança de nossas eleições é baseada na "competição de interesses". Cada passo, com exceção do preenchimento do voto pelos eleitores em cédulas anônimas, é testemunhado por delegados de cada partido majoritário; isto garante que qualquer ação maliciosa de uma parte -- ou mesmo erros honestos -- serão detectados pelos observadores do outro partido. Este sistema não é perfeito, mas ele tem funcionado bem nos últimos duzentos anos.

Eleições eletrônicas são como um iceberg; as ameaças reais estão abaixo da superfície, onde não se pode vê-las. Urnas eletrônicas que não imprimem o voto em papel subvertem este processo de segurança, permitindo que um pequeno grupo de pessoas -- ou mesmo um único hacker -- seja capaz de afetar toda uma eleição. O problema é o software -- programas invisíveis e que não podem ser verificados por um time de juízes eleitorais republicanos ou democratas, programas que podem alterar drasticamente o resultado final da eleição. E como tudo o que resta ao final do dia são as somatórias eletrônicas, não há como verificar os resultados ou realizar uma recontagem. Recontagens são importantes.

Este não é um problema teórico. Nos EUA existem centenas de casos documentados sobre urnas eletrônicas distorcendo o voto em detrimento de candidatos dos dois partidos políticos: urnas perdendo votos, trocando os votos dos candidatos, registrando mais votos que o total de eleitores e não registrando voto algum. Eu sinceramente gostaria de acreditar que todos esses casos foram erros e não fraudes deliberadas, mas a verdade é que nós não temos como saber. E estes são apenas os problemas detectados; é quase certo que muitos outros problemas passaram despercebidos porque ninguém estava prestando atenção.

Isto é ao mesmo tempo novo e terrível. Historicamente, fraudes eleitorais em grande escala sempre foram muito difíceis de implementar, pois requeriam ações muito ostensivas ou um governo muito corrupto -- ou ambos. Mas eleições eletrônicas são diferentes: um hacker solitário pode afetar uma eleição. Ele pode realizar seu trabalho secretamente antes de as urnas serem despachadas para os locais de votação. Ele pode afetar as urnas eletrônicas de toda uma região. E ele pode cobrir seus rastros completamente, escrevendo código que se auto-remove depois da eleição.

Isso, assumindo que as urnas eletrônicas sejam bem projetadas. As urnas reais, vendidas por empresas como a Diebold, a Sequoia Voting Systems e a Election Systems & Software são muito piores. O software é pessimamente projetado. As urnas são "protegidas" por chaves de frigobar. As somatórias dos votos são armazenadas em arquivos facilmente modificáveis. As urnas podem ser infectadas por vírus. O software de algumas destas urnas usa o Microsoft Windows, com todos os bugs, travamentos e vulnerabilidades de segurança que ele introduz. A lista de práticas inadequadas de segurança é interminável.

As empresas que fabricam urnas eletrônicas contra-argumentam que estes ataques são impossíveis porque as urnas nunca são deixadas sem vigilância (são sim), os cartões de memória que armazenam os votos são cuidadosamente controlados (não são) e tudo é supervisionado (não é). Sim, eles estão mentindo, mas também não estão entendendo o problema.

Nós não deveríamos -- e não precisamos -- ter que aceitar urnas eletrônicas que podem algum dia ser seguras quando uma longa lista de procedimentos operacionais forem seguidos precisamente. Nós precisamos de urnas eletrônicas que sejam seguras independentemente de como elas sejam programadas, manipuladas e usadas, e que possam ser confiáveis mesmo se forem vendidas por uma empresa afiliada a algum partido ou uma empresa com possíveis ligações com a Venezuela.

Parece uma tarefa impossível, mas, na verdade a solução é surpreendentemente simples. O truque é utilizar urnas eletrônicas como impressoras de cédulas. Vote usando qualquer sistema automático e eletrônico de tela-ativa que você prefira: uma máquina que não mantenha registros ou somatórias dos votos, mas que apenas imprima o voto em papel. O eleitor pode verificá-lo, pra ter certeza do voto, e depositá-lo em uma urna provida de um scanner óptico. A urna detecta o voto e provê a somatória inicial, enquanto as cédulas impressas em papel provêm os meios necessários para uma eventual recontagem. E as cédulas dos ausentes ou de backup podem ser contadas da mesma maneira. Você pode até mesmo abrir mão da máquina impressora do voto e preenchê-los a mão, como fazemos em Minnesota. Ou executar uma eleição 100% pelo correio, como fazem em Oregon. Novamente, cédulas de papel são a chave da solução.

Papel? Sim, papel. Uma pilha de papel é mais difícil de modificar que um número na memória de um computador. Os eleitores podem ver seus votos em papel, independentemente do que acontece dentro do computador. E, mais importante, todo o mundo entende papel. Temos problemas com nossas contas telefônicas e com débitos indevidos em nossas contas de cartão de crédito, mas quando foi a última vez que você teve problemas com uma cédula de 20 dólares? Sabemos como contar papel. Os bancos contam papel o tempo todo. Tanto o Canadá quanto a Inglaterra contam cédulas de papel sem problemas, assim como a Suíça. Nós também podemos fazê-lo. Num mundo cheio de travamentos, vírus e hackers, uma solução de baixa tecnologia é a mais segura.

Urnas eletrônicas seguras são apenas um dos componentes de uma eleição justa e honesta, mas elas são uma parte cada vez mais importante. Elas são o componente onde um atacante dedicado pode cometer a fraude da maneira mais efetiva (e sabemos que alterar o resultado pode render milhões). Mas não deveríamos nos esquecer de outras táticas de supressão de votos: indicar aos eleitores o local ou a data errada da eleição, tirar os eleitores registrados da lista oficial, colocar urnas insuficientes nos locais de eleição ou encarecer o processo de registro dos eleitores. (Por estranho que pareça, votos de eleitores inelegíveis não são um problema nos EUA, apesar da retórica política dizendo o contrário; todo estudo mostra que o número destes eleitores é tão pequeno que se torna insignificante. E requerer identificação fotográfica na verdade causa mais problemas do que é capaz de resolver.)

As eleições são uma questão tanto de tecnologia quanto de percepção. Não basta o resultado ser matematicamente correto; todos os cidadãos precisam poder confiar no processo e acreditar nos resultados. Em todo o mundo, as pessoas protestam depois de uma eleição não porque o seu candidato tenha perdido, mas porque elas acreditam que ele tenha perdido injustamente. É vital para uma democracia que o processo eleitoral determine corretamente o vencedor e convença adequadamente o perdedor. Nos EUA, estamos perdendo a batalha da percepção.

As urnas eletrônicas que temos disponíveis no momento falham nestes dois quesitos. Os resultados do 13º distrito congressional da Flórida não corretos e tampouco convincentes. Como uma democracia, nós merecemos mais. Devemos nos recusar a votar em urnas eletrônicas que não ofereçam a garantia de uma cédula de papel e continuar a pressionar nossos legisladores para implementar tecnologia de votação que funcione.

Este ensaio apareceu originalmente na Forbes.com.

Avi Rubin escreveu um bom ensaio sobre eleições pra Forbes também.

© 2006 Bruce Schneier

É interessante que as urnas eletrônicas usadas no Brasil já contêm uma impressora usada para gerar os relatórios finais de votação em papel. Não deveria ser muito mais caro acoplá-las a umas daquelas antigas urnas de lona, de modo que ao votar o eleitor pudesse ler seu voto impresso, conferi-lo e depositá-lo na urna antiga. Imagino que só isso já conferiria um grau de auditabilidade muito maior, permitindo que eventuais recontagens fossem feitas com a abertura das urnas de lona.

O Schneier propõe um sistema mais complexo, envolvendo duas máquinas. O eleitor vota na primeira máquina que imprime o voto. O eleitor pega o voto e insere na segunda máquina que é uma urna com um scanner óptico, capaz de ler o voto do papel e de somá-lo ao total de votos. O resultado final é obtido da segunda máquina.

Mas em que estes sistema é melhor que o primeiro? Não consegui encontrar uma explicação direta, mas imagino que seja a garantia da privacidade do voto. Lembrem-se que quando vamos votar por aqui o fiscal insere nossos dados no sistema pra liberar a urna. Seria perfeitamente possível ao sistema relacionar meu título de eleitor ao meu voto. Mas no sistema de duas máquinas isto já não é mais possível. O voto impresso não deve conter nenhuma identificação do eleitor, de modo que a urna não conseguiria fazer a correlação. Já a máquina de votação não deve gerar nenhum relatório, sendo meramente uma impressora de votos.

É impressionante, mas creio que os custos pra implantar um sistema como este seriam maiores que uma mera adaptação das urnas atuais para imprimir o voto e depositá-lo numa urna sem scanner. Na minha opinião deveríamos adotar um sistema simples como esse já e estudar a propriedade de adotarmos o sistema mais complexo no futuro.

É interessante saber que as urnas brasileiras têm parentesco com as americanas. A Procomp, fabricante original das urnas brasileiras, foi comprada pela Procomp há alguns anos. De acordo com o ótimo artigo do Eng. Amílcar Brunazo Filho, 2/3 das urnas brasileiras ainda utilizam a tecnologia original, baseada num sistema operacional DOS-like. As 1/3 mais recentes utilizam essencialmente o sistema das urnas americanas da Diebold, baseados no Windows CE.

As conclusões deste artigo são preocupantes. Ele diz que o TSE tem-se recusado a permitir que sejam realizados testes de penetração nas urnas eletrônicas brasileiras. Tanto o PT quanto o PDT já fizeram petições formais ao TSE neste sentido mas elas foram ou ignoradas ou indeferidas. Essa história é contada em detalhes em outro artigo de Brunazo. Lendo a história quero crer que haja um misto de ignorância em relação aos riscos envolvidos e de prepotência guiando estas atitudes do TSE. A alternativa seria maquiavélica demais pra cogitar.

(Agradeço ao meu colega Marcos Ide pelas longas e por vezes acaloradas discussões sobre este assunto.)

Relatividade e Pi

Como eu disse, ontem estive conversando com a professora do meu filho Tiago sobre o seu desempenho durante o segundo ano primário. O interessante dessas conversas é que sempre somos surpreendidos por algum aspecto da visão que os professores têm de nossos filhos. Sempre temos a ilusão de que os conhecemos melhor que ninguém, mas o fato é que eles se comportam de maneira diferente quando estão conosco e quando estão na escola.

O Tiago é um menino bastante curioso. Quase todos os meninos oito anos o são, é verdade, mas há curiosidades de vários tipos. Algumas são enervantes, como a ansiedade em que ele fica quando não está participando de uma conversa e quer saber do que estamos falando. É impossível conversar no carro sem a sua participação.

Mas há outras mais raras. Anteontem à noite, depois de lermos um pouco do nosso livro e de nos darmos boa-noite, eu achava que ele já estava entregue aos braços de Morfeu quando ele se vira e pergunta:

- Pai?
- Oi, filho.
- Por que é mesmo que o tempo passa mais devagar quando a gente viaja na velocidade da luz?

Toin! E essa agora? É o tipo de pergunta que eu gostaria de poder responder de um jeito que o estimulasse a continuar a pensar no assunto. Afinal, não é à toa que eu costumo contar histórias de cientistas e descobertas. É pra ver se ele se interessa pelo assunto. Infelizmente, essa eu não sabia responder. Acho que disse mais ou menos o seguinte:

- Não sei, filhão. O Einstein descobriu que devia ser assim e os cientistas já conseguiram fazer experiências que comprovaram que é assim. Mas eu acho que ninguém sabe "por que" é assim. Sacou?
- Mas pai...
- Vamos dormir, filhão. O papai tá com sono.

Preciso retomar o assunto quando tiver algo instigante pra dizer pra ele. Hoje cedo ele estava me perguntando sobre o Big Bang. (E eu nem me lembro direito quando é que eu falei disso pra ele antes.) Parece que eu lhe disse que antes do Big Bang não devia existir nada: nem matéria, nem energia, nem tempo e nem espaço. Mas é óbvio que esse papo não colou. Ele ficou me perguntando de que cor devia ser o universo antes do Big Bang. Pra ele, como não tem nada, devia ou ser branco, ou transparente ou preto. Conversamos um pouco e eu o convenci de que se fosse pra ter cor tinha que ser preto. Mas eu acho que nem cor tinha... ele saiu matutando. He he, espero que ele não me venha com outra que me faça cair do cavalo.

Acho importante um pai dar atenção às dúvidas dos filhos. Nossa tendência imediata é encerrar a questão pra podermos nos dedicar aos assuntos que nos interessam. Mas as dúvidas deles são uma boa pista para os assuntos que lhes interessam. Uma reação de desprezo só pode ter um efeito ruim, seja insinuar que os seus assuntos não são interessantes, ou que sua dúvidas são bobas ou que não vale a pena "querer saber", já que ninguém se interessa mesmo. Não. É preciso um pequeno esforço pra que eles sintam que é legal ser curioso e aprender.

Quando eu tinha uns 11 anos e estava na quinta série tive uma experiência marcante. Meu pai, que é engenheiro e gostava de me ensinar matemática, um dia me falou sobre Pi. Entendi os fatos básicos sobre ele ser a razão entre a circunferência e o diâmetro de qualquer círculo, mas o que me fascinou foi tentar entender como é que os seus dígitos decimais nunca acabam. Acho que eu já sabia, a essa altura, sobre dízimas periódicas, como 3,333... Mas foi difícil engolir um número que nunca acabava. Como é que os caras podiam saber?

Lembro-me de ter ido à cozinha com um carretel de linha e uma régua. Peguei uma lata de Nescau, envolvi-a com a linha e medi a circunferência com a régua. Depois, medi o melhor que pude o diâmetro. Pus os valores no papel e comecei a calcular a razão. Devo ter chegado a um número próximo a 3,1. Não me lembro se o resultado foi exato ou se me deparei com uma dízima periódica. Acontece que fiquei matutando sobre isso. É claro que eu tinha noção que minhas medições não eram exatas e que havia algum erro nos números que eu dividi.

Mas não era o erro que me intrigava. Era algo relacionado ao algoritmo da divisão. Eu fiquei pensando sobre como é que o algoritmo gerava novas casas decimais. Eu tinha que acrescentar um zero à direita do último resto e fazer mais um passo da divisão e assim sucessivamente, até que o resto do passo desse zero, quando a divisão acabava, ou que repetisse um resto já obtido, quando começava uma dízima. Não tinha outra opção: ou terminava ou começava uma dízima periódica. Caramba! Será que ninguém nunca tinha pensado nisso? Se Pi é o resultado de uma divisão, não tem como ele não ter fim.

Eu me lembro que fiquei eufórico com a descoberta. Corri pra falar pro meu pai. Tentei explicar mas tive a impressão de que ele não deu muita bola. Ele me disse pra procurar o professor de matemática e perguntar pra ele. Hoje eu acho que o que aconteceu foi parecido com o que ocorreu entre mim e o Tiago. Meu pai deve ter ficado sem resposta pra dar e preferiu repassar a responsabilidade pro professor. Talvez o ideal seria ele ter se entregado ao prazer da investigação e tentado entender o meu erro pra me explicar. Mas isso custa. Hoje eu sei.

Eu não procurei meu professor. Fiquei com medo que ele pudesse se apossar da minha descoberta e o mundo não ia ficar sabendo que eu era o responsável. Guardei meu segredo por mais uns dois anos até que, na sétima série, aprendi os fatos sobre os números irracionais e a incomensurabilidade entre o diâmetro e a circunferência. Em retrospecto, acho que não teria sido muito difícil descobrir sozinho meu erro se eu tivesse pensado mais no assunto. Eu podia ter imaginado que quanto maior o número de dígitos necessários para representar o denominador da divisão, maior a quantidade de restos possíveis e que, no limite, se o denominador tiver um número infinito de dígitos (essencialmente, se ele próprio for uma dízima não-periódica ou um número irracional), então o resultado da divisão pode perfeitamente ser assim também.

Mas foram dois anos emocionantes enquanto eu esperava ter a maturidade suficiente pra publicar minha própria descoberta.

Nem todos fazem grandes descobertas. Mas eu senti o gostinho de ter feito uma, pelo menos enquanto durou minha ilusão. Certamente esta experiência influiu positivamente nos meus interesses futuros. Gostaria que meu filho continuasse a pensar nesses assuntos interessantes e importantes. Tomara que ele possa sentir o prazer de realizar uma grande descoberta. E se for sem se iludir, tanto melhor.

Ode ao Rafa

Ontem fui à reunião de final de ano na escola de meus filhos conversar com suas respectivas professoras. Saí de lá todo orgulhoso, como convém. A professora de meu filho mais velho, Tiago, me deu um cartão de Natal que ele fizera pra família. No computador, bem bacana. Ele o escreveu em duas estrofes. A primeira é pra família:


Querida família,
Eu desejo um ótimo natal e final
de ano e um ótimo 2007 eu
quero que vocês ganhem belos
presentes.

Bastante apropriado. Mas a segunda é genial:

Razão da minha vida
A estrela do meu coração
Força que nos uni
Alegria da minha vida
Energia do universo
Lutador da humanidade
Laço da paz
Ordem do universo você é o
Rafaello.

Enquanto eu lia os primeiros versos ficava imaginando ansioso pra quem é que ele estaria dizendo essas coisas tão bonitas. (Seria pra mim? Pra sua mãe? Pra babá?) Sua professora disse que quando leu seu queixo caiu e ela lhe perguntou:

- Rafaello, o pintor?
- Não, meu gato.
- Ah... é claro...seu gato.

Acontece.